Viva a Liberdade! - Vlademiro Duarte


Viva a Liberdade! As palavras são de um ex-recluso que horas antes tinha saído em liberdade após ter estado preso. Trazia um saco de plástico transparente com roupas debaixo dos seus longos e magros braços tatuados. “Vinte paus para chegar até aqui mano!” (Pontinha) dizia ele com ar de espanto e insatisfação sentando a meu lado. “Este autocarro passa na Serra? (referindo a Serra da Luz)” perguntou ainda quase de pé, respondi dizendo que sim.
Era um jovem franzino com os olhos esbugalhados, parecia ter estado muito tempo preso, pois, o ar de espanto e de admiração com que observava atentamente para todo o lado fazia prever que passou muito tempo preso. À medida que o autocarro ia avançando pela Pontinha adentro, falava sózinho à espera que alguém o respondesse rodando a cabeça constantemente de um lado para o outro com olhar admirado: “Já não é aqui os bombeiros?”, “isto está tudo mudado!”, “Olhá ali o meu mano!”.
De repente o autocarro parou e as portas abriram-se esperando que alguém saísse, “desculpa Senhor Motorista não é nesta, enganei-me!” Disse já de pé junto à porta de sáida do autocarro passando as mãos pela cabeça, completamente envergonhado. Era a terceira vez que tinha carregado no sinal de paragem.
Enquanto o autocarro avançava viu-se ao longe o Bairro da Urmeira e Santa Maria. Fez uma breve pausa passou as mãos pelos cabelos, recompôs a sua roupa e olhou firmemente em frente, parecia estar dizendo “Estou pronto!” Era visivel que naquele momento às portas do seu bairro a sua fadiga, ansiedade e vontade de sair do autocarro era incontrolável. Talvez estivesse com aquela sensação agradável/desagradável de frio na barriga e muitas borboletas a voar no estômago. Avançou pela porta e desceu, o que aconteceu a seguir não consigo descrever, mas com certeza deve ter gritado novamente pela sua liberdade, porque se fosse eu era o que faria.
Após aqueles minutos apreciando em silêncio o comportamento daquele ser pensei: Será que estará apto para voltar a conviver com a sociedade? Até quando durará a sua liberdade? Teria algo mudado nele (enquanto esteve preso)? Teria algo mudado naquele bairro (enquanto esteve ausente)?  Perguntas difícieis de responder, mas que certamente só a vida é capaz de nos responder.
No fundo neste mês dedicado à liberdade estive a repensar o que é a liberdade e o quanto ela é essencial para todo o ser. Viver, preservar e valorizar a liberdade só depende de nós.
Viva a Liberdade!

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