Viva a Liberdade! As palavras são de um ex-recluso que horas antes tinha
saído em liberdade após ter estado preso. Trazia um saco de plástico
transparente com roupas debaixo dos seus longos e magros braços tatuados.
“Vinte paus para chegar até aqui mano!” (Pontinha) dizia ele com ar de espanto
e insatisfação sentando a meu lado. “Este autocarro passa na Serra? (referindo a Serra da Luz)” perguntou
ainda quase de pé, respondi dizendo que sim.
Era um jovem franzino com os olhos esbugalhados, parecia ter estado
muito tempo preso, pois, o ar de espanto e de admiração com que observava
atentamente para todo o lado fazia prever que passou muito tempo preso. À medida
que o autocarro ia avançando pela Pontinha adentro, falava sózinho à espera que
alguém o respondesse rodando a cabeça constantemente de um lado para o outro
com olhar admirado: “Já não é aqui os bombeiros?”, “isto está tudo mudado!”,
“Olhá ali o meu mano!”.
De repente o autocarro parou e as portas abriram-se esperando que alguém
saísse, “desculpa Senhor Motorista não é nesta, enganei-me!” Disse já de pé
junto à porta de sáida do autocarro passando as mãos pela cabeça, completamente
envergonhado. Era a terceira vez que tinha carregado no sinal de paragem.
Enquanto o autocarro avançava viu-se ao longe o Bairro da Urmeira e Santa
Maria. Fez uma breve pausa passou as mãos pelos cabelos, recompôs a sua roupa
e olhou firmemente em frente, parecia estar dizendo “Estou pronto!” Era visivel
que naquele momento às portas do seu bairro a sua fadiga, ansiedade e vontade
de sair do autocarro era incontrolável. Talvez estivesse com aquela sensação
agradável/desagradável de frio na barriga e muitas borboletas a voar no
estômago. Avançou pela porta e desceu, o que aconteceu a seguir não consigo
descrever, mas com certeza deve ter gritado novamente pela sua liberdade,
porque se fosse eu era o que faria.
Após aqueles minutos apreciando em silêncio o comportamento daquele ser
pensei: Será que estará apto para voltar a conviver com a sociedade? Até quando
durará a sua liberdade? Teria algo mudado nele (enquanto esteve preso)? Teria
algo mudado naquele bairro (enquanto esteve ausente)? Perguntas difícieis de responder, mas que
certamente só a vida é capaz de nos responder.
No fundo neste mês dedicado à liberdade estive a repensar o que é a
liberdade e o quanto ela é essencial para todo o ser. Viver, preservar e
valorizar a liberdade só depende de nós.
Viva a
Liberdade!
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